Cthulhu Crisis

O Herdeiro Maldito - Segunda Parte

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Chicago,
Março, 1922.
ISSO É CHICAGO

No dia seguinte, Dr. Watson e John Price resolvem ir ao escritório do advogado pela manhã. Lá chegando, eles se encontram com alguns policiais que ainda investigam o local. Após alguma discussão, Steve consegue a permissão de um oficial para ir até sua sala. Antes um lugar que ostentava riquezas, peças de arte, tapetes caros e diferentes artigos de luxo, a sala agora se encontrava perfurada por tiros e destruída pelos gângsteres. Ver o seu tão árduo trabalho destruído incita a fúria no advogado. Contudo, ele sabe que é necessário ter calma e retornar a sua rotina. Não havia muito a se fazer senão reparar os danos.

Após contatar seu seguro, Watson consegue uma quantia em dinheiro suficiente para alugar um novo escritório e decorá-lo a seu gosto. Ele então opta por uma sala no mesmo prédio de Richard. O local, antes pertencente a um advogado, já estava pronto para uso, mas ainda precisava de algumas modificações. Suas paredes, de cor creme, e seus móveis, de uma madeira nobre e clara, tal como o lustre vítreo digno de um delírio onírico impressionariam qualquer cliente, mas Watson necessitava de mais. Um pouco mais tarde, próximo ao meio-dia, Steve e John já haviam organizado razoavelmente bem o novo escritório, embora ainda faltassem alguns toques finais, móveis a serem comprados, livros a serem trazidos, clientes a serem informados…. Várias mudanças que Steve teria de passar graças à máfia, que ele tanto ajudara no passado. A raiva do advogado era compartilhada pelo criminoso, que agora se sentindo perseguido pelos mafiosos, se via com um problema financeiro, uma vez que a máfia era sua principal fonte de renda. Contudo, Watson tenta ajudar Price o oferecendo uma vaga de ajudante em seu escritório, que não a aceita de imediato.

Entretanto, o barulho de um motor potente acaba despertando a atenção dos dois. Eles olham pela janela do escritório e veem um carro negro parado frente ao prédio onde Watson mora. Saindo dele, uma figura conhecida: Pequeno Timmy. Ele sai do carro e chuta a porta do prédio, adentrando-o. Ainda que furioso, Watson se contém. Ele vê vários homens dentro do automóvel. O advogado liga para a polícia e logo duas viaturas cercam o carro. Os oficiais rendem os homens, mas logo os criminosos passam a negociar com os policiais. Eles parecem se reconhecer e Watson teme que os gângsteres sejam liberados. Agora era impossível conter a fúria de Steve; seus dentes rangiam enquanto seu sangue fervia, alcançando cada parte de seu corpo, como uma febre insana: uma de suas mãos trêmulas alcança o cabo de seu revólver enquanto suas pernas, desobedecendo a qualquer razão que ainda sobrava no advogado, leva-o a confrontar os criminosos, sejam eles policiais ou gângsteres. John suplica a Watson que ele não cometa nada que ele possa se arrepender mais tarde; contudo, se Steve não fizesse aquilo, talvez ele se arrependesse para sempre.

Quando o advogado se vê de frente aos policiais, ele pergunta o que está acontecendo. Um dos policiais, um sujeito de grosso bigode negro, calvo e de olhos verdes, cujo crachá revelava que seu nome era Bloyd, fala que aquilo nada tinha a ver com o cidadão. Watson, dizendo ser ele responsável pela denúncia, confronta o oficial. Um dos gângsteres, rendido e de joelhos no chão, pergunta quem o advogado é. Ele responde se tratar de um dos amigos do General Oliver, buscando intimidá-lo. O criminoso ri dele e pergunta se ele tinha algo a ver com “um homem chamado Steve Watson”, pergunta que o advogado nega. Confrontando cada vez mais Bloyd, Steve finalmente questiona se os gângsteres e os policiais estavam negociando e que se fosse o caso, ele iria os denunciar e se encarregaria do processo, como o advogado que é. A pergunta irrita o oficial, que se aproxima dele, olhando-o nos olhos e diz: “Você tem certeza, meu caro? Isso é Chicago.

Foi como se aquelas palavras despertassem um incontrolável demônio dentro de Watson. Sua mão, já próxima a seu revólver, moveu-se com velocidade assombrosa, tal como a luz de um arrebatador relâmpago e as patas de um guepardo sanguissedento. Quando a bala disparada pelo seu revólver, um verdadeiro martelo da única justiça que funcionaria em Chicago, alcançou o tanque do carro dos gângsteres, explosões cobriram a rua, matando todos presentes, com exceção de Watson e Bloyd, que caira aos pés do advogado. As labaredas passavam por Steve como pássaros assustados por uma visão terrível, enquanto Bloyd pedia perdão, sangrando no chão. Sem olhar para o tosco homem, o advogado puxa uma faca, se ajoelha e crava a lâmina prateada na cabeça do oficial, calando-o para sempre. “Isso é Chicago“, disse Watson.

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NO HOSPITAL

Richard Holmes estava em seu escritório no momento em que a explosão ocorreu. Ao olhar pela janela, ele reconhece a figura de Steve. Em instantes, ele vê a figura de Pequeno Timmy deixando o prédio onde mora o advogado. Watson lentamente se levanta e encara o gângster. Eles se fuzilam com olhares, esperando o momento ideal para atirar um contra o outro. As labaredas crepitam enquanto os dedos resistem ao impulso de um movimento brusco até as armas; o vento sopra de oeste a leste, carregando poeira e destroços; enquanto isso, o investigador observa do alto. Dois tiros são escutados, um homem cai: Steve Watson, jogado no asfalto, encontra-se agora sangrando terrivelmente.

Vendo seu companheiro ao chão, Holmes respira fundo e puxa seu revólver; apoia sua mão em seu outro braço e fecha um dos olhos, repousando seu corpo sobre o parapeito da janela: concentrado, dispara um tiro de fé contra a cabeça de Timmy. Com uma precisão incomparável, o projétil perfura o crânio do mafioso, impedindo-o eternamente de cometer qualquer outro crime. Por azar, contudo, o corpo do gângster cai sobre as chamas, começando a queimar. Richard percebe que se ele quiser revistar os pertences de Timmy, ele precisa andar rápido. Contudo, o tempo do investigador ir até o corpo do criminoso poderia impedir Holmes de salvar a vida de seu amigo, se ainda houvesse como.

Entre a vida de Watson e possíveis pistas essenciais para o caso, Holmes opta por salvar seu aliado. Rasgando a blusa do advogado e com uma pequena lâmina, o investigador é capaz de retirar o projétil do peito de Steve. Após isso, ele joga álcool do seu whisky sobre a ferida e logo após a estanca. Vendo o corpo de Timmy queimando, Holmes lamenta pelas pistas perdidas. Enquanto isso, John, percebendo a situação, já espera os dois no carro de Watson. Holmes vê Price e leva Watson para o carro. Os três vão para o hospital.

No caminho, os três passam pela principal praça da cidade. Sobre um palanque, um homem com cerca de 60 anos faz um anúncio. Ele diz para as pessoas terem fé na cidade, muito embora ele entenda os motivos para o desespero da população. Ao terminar seu discurso, ele é imediatamente ovacionado pela multidão que o observa. Contudo, ao mesmo tempo que as palmas começam, um carro esportivo e de placa estranha chama a atenção de Richard; ele suspeita que aquele carro pertence à máfia.

O lado exterior do grande prédio de três andares em que funcionava o hospital era simples e agradável, de paredes brancas e portas de madeira grossa e clara, com uma escultura dourada do Bastão de Asclépio sobre ela. Holmes consegue rapidamente fazer com que Watson seja atendido. Após isso, quatro médicos, levando um homem em uma maca, passam por ele, desesperados, levando o paciente para o interior do hospital. O homem gritava e se contorcia, e os médicos diziam que tinham de levá-lo para tomar soro.

Curioso com a cena, Holmes pergunta a uma atendente sobre o que estava acontecendo. Ela o diz que, recentemente, vários casos de pessoas envenenadas por cobras estavam ocorrendo em Chicago. Sabendo disso, John e Richard pedem para investigar as salas onde estão esses pacientes, mas a atendente não os permite.

Price, sem perder tempo, vai a uma loja de aparatos médicos e compra um jaleco para se disfarçar e poder melhor investigar. Assim que retorna ao hospital, ninguém percebe quando ele atravessa a porta que leva da sala de espera para o interior. Contudo, ao adentrar o corredor principal, um médico de meia-idade o aborda, perguntando quem ele era. Price fala ser o dr. Wayne, um novo médico naquele hospital, contratado para ajudar os pacientes envenenados. O médico se apresenta como Dr. Charles. Enquanto isso, Richard Holmes acaba encontrando uma entrada alternativa para o interior do hospital. Assim que ele lá se encontra, logo busca por John Price.

John e Richard se encontram. O médico pergunta a Holmes quem ele é; o investigador diz que estava lá para visitar um amigo internado. Os dois são levados por Charles à sala onde estão os pacientes envenenados, e John anota alguns nomes para uma futura investigação. Dr. Charles, ao ser informado por Richard de que ele era um investigador, conta a ele sobre um problema que o afligia. O médico namorava uma jovem. Eles tiveram um curto relacionamento até que ela engravidou. Após isso, ela resolveu denunciá-lo por estupro; algo que Charles, infelizmente, já esperava. Após ela ser assassinada da mesma forma que as mulheres mostradas por Manfredini, a família da jovem assumiu o processo. Charles pergunta se Holmes poderia investigar o assassinato da garota, pois mesmo após o processo, ele ainda tinha sentimentos por ela. O investigador diz que analisará a proposta.

Quando Watson desperta, quase no fim da tarde, o grupo se reúne, incluindo Oliver, para decidir o próximo passo da investigação. Enquanto John suspeita que é interessante analisar a causa dos ataques das serpentes, o general sugere que é ainda mais urgente descobrir o que anda acontecendo com as grávidas em Chicago. Após alguma discussão, todos concordam que o melhor a ser feito é ir ao departamento de polícia e conversar com Manfredini. Surge em Watson, ainda bastante ferido, uma terrível ideia.

Ao chegar à sala do investigador policial, ele logo permite que todos entrem. Eles trocam cumprimentos breves enquanto o advogado se aproxima de uma janela atrás de Manfredini. Os investigadores o informam sobre o confronto de Watson com a máfia e a polícia. Um pouco surpreso, Manny fala que manterá sigilo sobre isso. É quando o inesperado acontece.

Em uma fúria maníaca, o advogado salta sobre o pescoço do policial com uma faca em mãos. Manfredini se assusta, questionando-o sobre o que diabos estava acontecendo. Watson se revela cansado do esquema da polícia: de que lado eles estavam? Do crime? Da justiça? Ou de lado nenhum? Manny suspira e pesadamente afirma que era impossível dizer quantos policiais estavam na emaranhada teia criminosa que cobria Chicago, mas que existiam alguns poucos que ainda lutavam para manter a ordem. O policial afirma que ele, sozinho, era muito fraco e pequeno dentro daquele sistema onipotente, mas junto àqueles que se mostravam presentes em sua sala, ele poderia fazer alguma diferença. A lâmina lentamente abandona o pescoço de Manny, enquanto Watson ainda o encara desconfiado.

Manfredini revela que a investigação do caso de Christine tinha revelado novas informações. Aparentemente, a jovem havia denunciado um sujeito chamado Sullivan King como suspeito do rapto de sua irmã, Emma Shepard. Sullivan cometeu diversos crimes em seu passado, sendo que é muito provável, dada a sua influência, que seus pais, Barbara e Edward King, não saibam de seus atos. Contudo, é também sabido que Edward está desaparecido há algum tempo. Após uma breve investigação em suas residências em Chicago, Manfredini foi capaz de descobrir que Van Helsing está morando em uma propriedade dos Kings nos arredores da cidade. Os investigadores dizem que uma visita ao médico seria interessante, e Manfredini se oferece para acompanhá-los até lá. Eles adentram uma viatura policial e vão até a casa de que Manny falou.

gemini.png SIGNOS E SOLDADOS

A viatura para de frente ao portão de grades metálicas aberto. O grupo abandona o carro e atravessa a cerca viva que circundava o casarão. Era fácil dizer que os jardineiros dos Kings possuíam um gosto peculiar, tendo em vista as retorcidas formas arbustivas que dominavam a grama escura do imenso jardim, além da miríade de orquídeas e outras flores que assumiam cores frias. Na área central do local, um chafariz com a estátua de um anjo sem cabeça e de asas retorcidas, empunhando uma espada e erguendo a outra mão aos céus, completava o cenário macabro. De frente a tudo isso, o palacete de pedra cinzenta com suas molduras de janela e portas de madeira escura se erguia imponente, com suas gárgulas, perfeitamente alinhadas com cada aresta superior da mansão, rugindo para os investigadores.

Luzes se acendem no interior do palacete e da porta principal da casa sai um homem corcunda e muito velho, de cabelos escorridos e grisalhos, olhos desproporcionais e vestes de serviçal. Ele observa os investigadores, que, calados pela assustadora visão, só escutam a figura dizer que a “srta. Lubov” esperava por eles.

Eles atravessam a grossa porta de madeira e adentram ao vestíbulo, onde uma grande escadaria coberta por um luxuoso tapete turco de cores castanhas se ramifica em duas, levando a um corredor no andar superior. O piso é de tábuas de madeira nobre que combinam com o tapete e as paredes de tom creme, onde vários retratos feitos a óleo se encontram pendurados. O corcunda diz que irá chamar seus mestres e logo eles veem duas figuras descendo as escadas. Uma era o misterioso Van Helsing, enquanto a outra se tratava de uma mulher de corpo magro, cabelo negro ondulado e preso em um coque, robes de dormir, pele oliva, nariz fino e olhos atentos e escuros.

Benedict Van Helsing pergunta o que eles faziam na mansão e os investigadores dizem que precisavam que algumas perguntas fossem respondidas. Enquanto isso, a mulher, que se apresenta como Malvina Lubov Rasputin, encara incessantemente Richard Holmes. No primeiro momento de silêncio que se faz, ela se aproxima de uma mesa de canto e desembolsa um baralho, colocando as cartas à mostra sobre a superfície. Ela pede que Holmes escolha uma carta. Em um momento de deboche, ele decide fazer uni-duni-tê. Malvina o observa, sorrindo maliciosamente. Ela diz a ele que aquela é uma oportunidade única de saber mais do ele jamais poderia saber; uma oportunidade de mergulhar no futuro para compreender o presente, um presente que poucos jamais receberiam em vida. Richard, convencido pela mulher, tira uma única carta – a segunda. Lubov sorri quando vê a cara de Holmes ao encarar a Morte naquela carta.

Oliver pergunta o que Van Helsing faz morando na casa que pertencia a Edward. O médico responde que o homem era um velho amigo dele e que após trocarem algumas cartas, Benedict percebeu que era melhor ir para Chicago para melhor entender a situação do amigo. Watson indaga sobre o que estava acontecendo com Edward. Van Helsing diz que há algo naquela casa que pode ajudá-los a entender melhor, se eles não se incomodassem de o acompanhar. O grupo, ainda que receoso, aceita o convite.

Holmes, Manfredini, Oliver, Price e Watson sobem as escadas acompanhando Malvina e Van Helsing. Eles atravessam os corredores até chegar ao quarto de Lubov; um local de paredes alvas e piso de madeira clara, terrivelmente mal iluminado, uma ali não havia luz artificial, a única fonte de iluminação era a lua, cujo brilho atravessava três janelas na parede opostas à da porta. Havia ali não mais que uma refinada penteadeira com objetos perfeitamente organizados sobre ela, uma cama metálica brilhando sob a luz prateada e um simplório armário de madeira. Tudo isso não era mais do que detalhes se comparado à grande manta que se encontrava presa a uma das paredes. Lubov a encarava com um olhar sem vida. Ela diz que, após um terrível pesadelo, despertou em uma espécie de frenesi. Tirando a manta da parede, ela revela, como deduzido por Watson, um desenho da constelação de Gêmeos feito a sangue. Rasgando o pulso com os dentes, ela havia pintado aquela misteriosa imagem. Oliver ri da mulher, dizendo não acreditar naquele tipo de bobagem, tampouco no prenúncio de morte que ela fizera a Richard. Uma discussão começa: enquanto Malvina provoca o general ao lembrar das mortes de Verdun, o general a acusa de ingenuidade quanto às causas da guerra. Ela retruca dizendo que, ainda que a política seja a força motriz da guerra, há a necessidade de homens para empunhar armas. Irritado, Oliver pede a Malvina que siga adiante com o que ela estava falando.

Nesse instante, Van Helsing sugere a Manfredini que saia do quarto. Ele obedece como uma ordem; como se uma força superior a ele o impelisse a fazer aquilo: fato notado por Watson. Ao perceber isso, o advogado questiona Benedict sobre o que ele tinha feito; o médico diz a Steve que muitas forças agem sobre o mundo e que ele sabia controlar, ainda que em parte, algumas delas. Watson pergunta se ele poderia aprender aquilo e se Van Helsing poderia ensiná-lo. Ele, por vez, responde que sim – quando o momento chegasse. Questionado sobre a constelação de gêmeos, o anfitrião responde que aquilo tem provavelmente algo a ver com o filho de Edward, Sullivan. Nesse momento, Malvina fala que ela costuma visitar a mãe dele, Barbara, e que achava prudente investigá-la.

Insetos cantavam sob a luz da lua enquanto a hora passava. O frio do fim do inverno era uma brisa inebriante que atravessava os parapeitos de madeira envelhecida, ainda que bela. O grupo pergunta porque Manfredini teve de sair e Van Helsing diz que ele não era importante para os “planos do universo”, alegando que Malvina não o vê em seus sonhos. Por outro lado, a cartomante diz que, em seus sonhos, ela pode ver um grupo de heróis se unindo, enquanto demônios se fortalecem para combatê-los. Watson, ainda com muitas questões a fazer, indaga Van Helsing sobre Al Capone. Quais eram os planos do criminoso? O médico respira fundo e com certo receio, diz que o mafioso procura ressuscitar um “demônio”. Watson pergunta o porquê. Por fim, o médico responde: “por poder, é claro”.

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VictorSuzumura

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