Cthulhu Crisis

O Herdeiro Maldito - Quarta Parte

VIOLÊNCIA EM CHICAGO

A noite era silenciosa no distante campo onde ficava a mansão dos King. A lua cheia iluminava o céu, enquanto a brisa suave e fria lentamente afagava as folhas dos verdejantes carvalhos que decoravam o jardim da rica casa. Contrastando com a placidez da cena, Watson e Manfredini se encaravam com olhares furiosos.

Se o policial sabia da morte do professor, era questão de tempo até que Hudson denunciasse os investigadores, ainda mais porque, segundo Manny, policiais foram enviados para questionar Hudson. Caso isso acontecesse, seria uma guerra declarada: a corrupta polícia, a máfia e a Ordem poderiam facilmente derrubá-los. Era preciso silenciar o reitor – se palavras não resolvessem o problema, certamente uma bala daria um fim no assunto, ou ao menos no reitor.

Assim que Manfredini abandona a mansão, os investigadores logo começam a pensar em um plano para impedir Hudson de os denunciarem. Watson e Oliver sugerem o uso de um obstáculo para impedir as viaturas que levariam Hudson para a delegacia, se eles fossem rápidos o suficiente para interceptá-las. Eles improvisam o objeto com algumas cercas metálicas. Após o guardarem no carro de John Price, eles se dirigem a uma rua em que os policiais provavelmente passariam. Lá chegando, eles estendem o obstáculo na rua, Oliver e Holmes se escondem em um mesmo beco, enquanto John e Van Helsing aguardam na esquina, ainda no carro.

Cortando o silêncio da noite, duas viaturas lentamente passam pela rua onde se encontram os investigadores. Sem perceber a armadilha, uma delas acerta o obstáculo, derrapando e acertando um prédio. Enquanto isso, a outra viatura para e um policial desce dela. Rapidamente, Oliver e Holmes o matam. Fumaça e fogo dominavam a viatura avariada, mas uma figura ousou abandonar o caos flamejante do veículo destruído: era o próprio Hudson. Dotado de um ímpeto nefasto, Price dá ré em seu carro, mira no reitor e o acerta com tudo. Holmes confirma a morte atirando contra sua cabeça. Eles haviam matado o reitor.

CARTAS E SONHOS

Watson havia decidido ficar na mansão. Após passar algum tempo observando o crepitante fogo na imensa lareira de tijolos da mansão dos Kings, ele sai para andar pela casa. Indo até a sala de jantar, ele encontra Malvina, com um lenço rubro amarrado aos olhos, jogando tarô. A sala de jantar possuía um imenso lustre elétrico, dourado e adornado de prata. Uma colossal mesa de madeira nobre, porém rústica, estendia-se em meio ao salão de teto abobadado, cujas paredes de cor clara eram cobertas por quadros representando bucólicas paisagens e armários contendo cristais e louças nobres.

Malvina murmurava palavras desconhecidas por Watson. Ele, cautelosamente, se aproxima da cartomante. Antes de chegar realmente perto, Lubov anuncia já saber da presença dele. Ele pergunta se ela poderia ensiná-lo algo sobre Tarô. Com um sorriso sarcástico, ela diz que sim. Ela se levanta, tira o lenço do rosto e pede a Watson que se sente diante as cartas. Ela passa sua mão pelo rosto de Watson e cobre seus olhos com o lenço. Ao organizar as cartas, ela pede que ele as embaralhe, as espalhe sobre a mesa e pegue três cartas. Ele primeiro pega a carta do andarilho, que Malvina diz se tratar de alguém que procura, mas jamais encontra o que deseja. Logo depois, Watson tira a carta do homem pendurado, que significa um conflito decisivo, um ponto de mudança; entretanto, a última carta surpreende aos dois. A mão de Watson se aproxima lentamente de uma carta solitária ao canto da mesa, cujos seus dedos tocam lentamente, cada poro tocando as fibras azuladas da pequena e misteriosa carta que continha o destino último e inexorável; a carta que revelaria o tempo por vir, a sabedoria adquirida, a verdade revelada pelos deus do azar; mas Fortuna não estava ao lado de Watson. Ele vira a carta, suando frio, para descobrir seu destino.

O diabo.

Malvina abandona a sala com uma leve risada. Watson retira o véu de seus olhos.

Nesse momento, o resto dos investigadores retorna à mansão. Eles encaram Watson e com um gesto, confirmam o que haviam feito. Palavras não eram necessárias.

Watson dormia em seu grande quarto, sobre um confortável colchão em uma cama de cedro claro, com o quarto sendo iluminado pela prateada luz da lua que atravessava as janelas de seu quarto. Entretanto, em seus sonhos, ele é perturbado por uma voz feminina. “Gêmeos, Serpentário, Peixes, Escorpião, Libra, Cordeiro”, ele escuta repetidas vezes. Atormentado, ele desperta, para ver Malvina frente a ele, de olhos fechados, falando aquelas palavras. Ele tenta a acalmar, mas é em vão. Dentro de alguns momentos, ela retorna ao seu quarto.

O OCULTO DEVE ESPERAR

O advogado havia dormido muito mal. Pesadelos o atormentaram por toda a noite. Contudo, ele precisava entender o que havia acontecido na noite passada; para tal, ele pretendia acordar cedo para falar com Malvina.

Chegando ao quarto da mulher, ele a acorda. Ela abre seus olhos, revelando sua negra íris e contempla Watson, curiosa. Inicialmente sem palavras, Watson repete exatamente o que ela falou para ele, informando-a do que aconteceu na noite anterior. Ela diz a ele que tudo o que foi falado são signos, com exceção do cordeiro. Embora Capricórnio exista, o cordeiro não.

Enquanto isso, um café da manhã era preparado pelo corcunda. Os investigadores se dirigem à sala de jantar, atraídos pelo agradável cheiro da refeição preparada pelo mordomo. Lá chegando, eles encontram a mesa repleta de bolos, pães diversos, frutas, sucos, jarras de leite e doces exóticos. O corcunda se coloca em pé, ao lado da mesa, o que incomoda os investigadores. Watson pede a ele que se sente – ele, imaginando poder ser uma presença desagradável, inicialmente resiste ao pedido, mas acaba cumprindo a ordem.

Contudo, a refeição acabou sendo interrompida quando se ouviu os portões da mansão baterem com imensa força, como se alguém furioso entrasse; e o era. Manfredini adentra, se dirigindo à sala de jantar, e grita: “o que vocês fizeram? Vocês ficaram loucos? O reitor da universidade e mais policiais?”. Watson pede a ele para se acalmar, mas Manfredini continua. “Vocês são doentes?!”, ele grita. “Ao menos não temos sífilis”, diz Watson. O policial se lança contra o advogado, tentando socar seu rosto. Watson desvia, agarra Manfredini e se lança ao chão junto a ele. Manfredini tenta socar Watson, mas erra, e o advogado desfere um poderoso golpe contra o peito do policial. Manfredini rola no chão e começa a tossir sangue no piso. Todos observam o policial, temerosos. Watson se recompõe e tenta ajudar Manfredini a se levantar, mas ele recusa a ajuda. Henry se levanta, observa os investigadores e fala: “senhores, nossa sociedade acabou”. Quando o policial abandona a mansão, Holmes e Oliver se entreolham. Richard pensa por um momento se não seria melhor eliminar o policial, mas pergunta a Oliver se não seria melhor ir falar com o policial. O general assente.

O dois vão até o jardim e lá encontram Manfredini andando até sua viatura. Eles correm até o homem e o impedem. Manfredini revela sua vontade de abandona a polícia e sua ira em relação à corrupção generalizada em todas as instituições e sua impotência em relação a tudo que acontecia. Ele ainda revela que o ele só podia contar com os investigadores, mas se as coisas continuassem daquela forma, seria impossível manter a aliança. Holmes pede a ele que se acalme e retorne à mansão, pois eles tinham muito a discutir. Manfredini respira fundo, se recompõe e aceita.

Quando o policial retorna, ele logo faz um pedido de desculpas. O clima fica tenso, especialmente com as piadas feitas por Malvina em relação à situação. Van Helsing logo revela seu descontentamento com Manfredini na mansão, mas aceita a presença do policial lá. Eles comem e, após muito conversarem, decidem ir à casa de Barbara King para descobrir mais sobre Sullivan. Malvina releva poder acompanhar os investigadores, tendo em vista que a cartomante costumava visitá-la com certa frequência para oferecer seus serviços sobrenaturais, mas que, para tal, eles deveriam ir à casa pelo pelo período da noite. Eles aceitam a ideia.

Um pouco mais tarde, Watson vai a seu novo escritório. Mais uma vez, ele encontra sua sala completamente revirada, mas há algo diferente dessa vez: uma carta, sobre a mesa. Ele abre o envelope e vê a assinatura de Johnny Torrio. A mensagem só diz uma coisa: “você está dispensado, Watson”.

Richard também vai a seu escritório. Tudo estava normal, embora existisse uma grande quantidade de cartas não lidas. Ele lê algumas, encontrando uma mensagem de Charles, o médico que pediu que ele investigasse o que aconteceu a sua namorada. Ele ignora a carta e vai embora.

Oliver vai até seu quartel e lá descobre que o Marechal Bradok deseja falar com ele. Ele se dirige à sala do homem. Bradok era um sujeito alto e velho, de barba feita e cabelo perfeitamente alinhado, a rigor militar. Seus azuis olhos, mudados depois da Primeira Guerra, tinham algo de sinistro. Quando Oliver entra em sua sala, prestando continência, o marechal o dispensa brevemente. Bradok arruma alguns papéis em sua mesa, arruma sua farda, pigarreia e se levanta, enquanto Oliver somente o observa, com o devido respeito. Bradok então pergunta algo que surpreende Oliver. “Que é o policial com quem você está trabalhando?”, diz o marechal. Oliver, ainda surpreso, mente: “eu não sei do que você está falando”. Bradok ri e repete a pergunta. Oliver inventa um nome qualquer e Bradok o dispensa.

A Ordem estava crescendo.

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O Herdeiro Maldito - Terceira Parte

Ainda na mansão de Edward King, no quarto de Malvina, os investigadores questionam Van Helsing e a cartomante sobre os casos de envenenamento por picada de cobras em Chicago. Eles revelam não saber muito além do fato de uma mulher misteriosa, vista por Lubov em seus sonhos, estar envolvida de alguma forma com esses acidentes.

Em determinado momento, os investigadores escutam Manfredini começar a tossir fortemente no lado de fora do quarto. Assim que Watson sai do recinto, ele percebe que o policial limpa sua boca com um lenço, deixando leves marcas de sangue no pano. O advogado pergunta se ele está bem e Manny diz que sim. Ainda desconfiado, Steve pede a Van Helsing para que ele examine o policial. O médico pega seus equipamentos e faz alguns testes em Henry, que, ao término do improvisado exame, retira-se às pressas do local, voltando a aguardar do lado de fora. É possível notar que Manfredini se sentiu ofendido com a situação. Tanto o médico quanto os investigadores suspeitam que o policial pode ter sífilis.

Por fim, Van Helsing convida os investigadores a morarem na mansão, uma vez que eles se encontram em perigo. Após alguma resistência inicial, os quatro aceitam o convite.

Chicago,
Março, 1922.
NA UNIVERSIDADE

No dia seguinte, John Price conversa com Manfredini para tentar ingressar na polícia. O investigador pergunta ao criminoso o porquê dele se interessar na carreira policial e John diz que ele pretende “manter a ordem na cidade”. Manny ri e mostra o jornal do dia a Price. Muitas das matérias envolviam o ex-gângster e seu amigo Dr. Steve Watson; coisa que o policial sabia. John pensa rápido e responde a Manfredini, de forma irônica, que aqueles eram motivos suficientes para se desejar manter a ordem. O policial diz a John que fará o possível para inseri-lo na polícia, mas o adverte da dificuldade do processo.

Quando a noite chega, John, Watson, Oliver e Holmes decidem investigar a Universidade de Chicago, onde Sullivan estudava História. Eles estacionam o carro frente à imponente construção de paredes de tijolos rubros, composta por duas torres laterais e uma ala principal, onde havia o grande portão arqueado de madeira escura e grossa que levava ao interior do prédio. John permanece no carro e os demais entram. Após atravessarem o portão, eles se encontram em um largo e extenso corredor com duas escadas ao seu final, vários alunos conversando, além de portas e entradas diversas que levavam aos demais corredores e salas. Contudo, uma porta que aparentemente leva ao departamento administrativo chama a atenção do grupo.

Oliver se aproxima de um aluno e pergunta a ele se ele conhecia alguém chamado Sullivan King. O rapaz, incomodado pela presença do general, pergunta quem ele é. Oliver se diz ser um militar, o que provoca uma reação exagerada do aluno. Sem muita paciência, Oliver agarra o jovem pelo colarinho e repete a pergunta. O aluno passa a gritar com o general, chamando a atenção de todos. É quando sujeito alto, esguio, com uma notável barba branca aparece, perguntado o que estava acontecendo. Era o reitor.

Holmes, Oliver, Watson e o aluno são levados à sala do homem. Ele se apresenta como “Dr. Hudson”. Watson mostra um distintivo policial conseguido no seu confronto com a polícia, se apresentando com o nome de Doug. Oliver não revela sua profissão e só diz seu nome. Holmes fala seu nome e diz ter estudado naquela universidade. O reitor rapidamente resolve o conflito entre Oliver e o estudante, dispensando o jovem logo em seguida. Após isso, ele pergunta aos três o que eles faziam ali. Eles revelam procurar por mais informações sobre Sullivan King, dizendo que o homem estudou História naquele estabelecimento. Hudson aparentemente não se lembra de Sullivan, mas diz poder procurar por mais informações nas fichas escolares. Ele abandona a sala para só retornar quase uma hora mais tarde. O reitor diz que Sullivan não se destacou durante sua graduação, embora tenha escrito sobre temas não muito comuns no meio acadêmico. Segundo Hudson, a maior parte dos seus trabalhos fala sobre a espiritualidade e o misticismo no antigo Egito. O homem ainda acrescenta que ao buscar informações sobre Sullivan, ele se lembrou de ter o visto recentemente, em uma breve visita do ex-aluno a um de seus antigos professores: um sujeito chamado Robert Plant.

A informação logo desperta o interesse dos investigadores. Abandonando momentaneamente a ideia de encontrar os textos redigidos por Sullivan, Oliver, Watson e Holmes perguntam a Hudson onde Plant se encontrava. Eles descobrem que o professor ainda está na faculdade. Vendo a oportunidade dada pelo acaso, os três decidem encontrar o sujeito. O reitor diz que pode guiá-los a Plant e Watson decide retornar para ao carro para descansar, uma vez que o advogado estava ainda estava se recuperando de seus ferimentos.

Mais uma vez juntos, Holmes e Oliver seguem Hudson até a sala onde Plant provavelmente estaria. Eles atravessam corredores de paredes creme com barrados de madeira clara, parcialmente cobertos pelos muitos armários da universidade. Os investigadores caminham a passos lentos, com olhares desconfiados, como se já esperassem por algo. Afinal, se Plant realmente mantinha contato com Sullivan, no mínimo ele sabia dos crimes do jovem King.

Hudson se aproxima de uma porta fechada com uma placa dizendo “sala dos professores”. O reitor os conta que Plant estava provavelmente sozinho, tomando seu café, como de costume. Hudson se retira, alegando ter assuntos administrativos a tratar, deixando o general e o investigador sozinhos. Era hora de arrancar alguns segredos do velho Robert Plant.

Eles giram a maçaneta da porta para abri-la, mas só a empurram enquanto aguardam do lado de fora. O ranger das dobradiças despertam a curiosidade do pequeno e gordo professor que aguarda sentando a uma mesa circular, em meio à escuridão da sala, segurando uma caneca de café que libera uma fumaça branca e espessa. Ele bebe um pouco do fervente líquido negro, fazendo com que o recipiente acerte seus óculos de armação oval, cujas lentes são tomadas por uma fina camada de gotículas de águas. Ele repousa sua caneca, pega um lenço e limpa seus óculos. Sua face, repleta das marcas de sua avançada idade, combina com seu pouco e alvo cabelo despenteado.

“Pois não?”, pergunta o professor. “Há algo em que posso ajudar, senhores?”. Sobre a mesa, Oliver nota vários livros e anotações; entre eles, o general encontra a monografia de Sullivan, intitulada “Tradições e Rituais do Antigo Egito: Entre a Verdade e o Mito”. Sem tempo a perder, Oliver e Holmes questionam Plant sobre o livro e Sullivan. O professor diz que não há mais do que uma relação puramente acadêmica entre os dois, e que o livro faz parte de um estudo do próprio Plant, que revela pertencer ao departamento de antropologia. Cansado do jogo do professor, Oliver segura a gola de Plant e pergunta a ele o que realmente estava acontecendo. Robert diz que não há alguém que não saiba das ações de Holmes e Oliver em St. Michel, e que a Ordem do Grande Regente tem olhos em todos lugares. Gritando com o professor, o general o ordena que revele onde está Sullivan, mas ele não nota que Plant possui uma pistola. Enquanto o velho tenta sacar a arma, Holmes percebe o movimento e atira contra o professor. “Vocês não conseguem ouvir a música?”, pergunta Plant, enquanto ele deixa a vida. “Não”, diz Oliver, antes de fugir por uma janela da sala levando a monografia de Sullivan.

Do lado de fora da faculdade, Watson e Price logo percebem uma estranha movimentação. Os poucos alunos que ali restavam agora entravam no colégio – alguém havia avisado sobre a morte de Plant. Watson liga o carro e logo vê Richard e Oliver. Em meio à multidão composta por alunos, os investigadores veem Hudson correndo na direção contrária – ele sabia do que Oliver e Holmes fizeram.

No carro e em direção à mansão, Oliver lê a monografia de Sullivan. Há muito sobre rituais antigos e suas sinistras práticas, mas um capítulo do trabalho o chama atenção. Nele, uma página repleta de anotações e marcas fala sobre um ritual chamado “Herança Maldita”, que se baseia na passagem de um espírito maligno que atormenta aquele que pratica o ritual para uma criança ainda em ventre. A criança nascida deveria ser queimada e enterrada, ou algo terrível poderia acontecer. O texto ainda fala sobre a possibilidade de um poderoso espírito gerar outra criança em ventre – no caso, os dois recém-nascidos deveriam morrer.

Chegando à mansão dos King, a viatura de Manfredini aguarda na frente da casa. Eles adentram o local e encontram o policial sentado em um sofá, girando uma arma em sua mão. Manny se levanta e avança contra Oliver, vociferando e o culpando de agir de forma imprudente, tudo por conta da morte de Plant. Watson tenta acalmar Manfredini, mas tudo é em vão. O advogado chama Van Helsing, que falha em tentar acalmar o convidado. É nesse momento em que o policial dispara: “vocês são como crianças com uma arma!”. A língua afiada do Dr. Steve Watson rapidamente responde: “ao menos não brincávamos com uma arma”. Os dois se encaram e Manfredini parecia prestes a saltar contra Watson. O policial, há tanto tempo inimigo do crime, encarava o advogado que defendia mafiosos. Aquilo ainda não estava resolvido.

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O Herdeiro Maldito - Segunda Parte

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Chicago,
Março, 1922.
ISSO É CHICAGO

No dia seguinte, Dr. Watson e John Price resolvem ir ao escritório do advogado pela manhã. Lá chegando, eles se encontram com alguns policiais que ainda investigam o local. Após alguma discussão, Steve consegue a permissão de um oficial para ir até sua sala. Antes um lugar que ostentava riquezas, peças de arte, tapetes caros e diferentes artigos de luxo, a sala agora se encontrava perfurada por tiros e destruída pelos gângsteres. Ver o seu tão árduo trabalho destruído incita a fúria no advogado. Contudo, ele sabe que é necessário ter calma e retornar a sua rotina. Não havia muito a se fazer senão reparar os danos.

Após contatar seu seguro, Watson consegue uma quantia em dinheiro suficiente para alugar um novo escritório e decorá-lo a seu gosto. Ele então opta por uma sala no mesmo prédio de Richard. O local, antes pertencente a um advogado, já estava pronto para uso, mas ainda precisava de algumas modificações. Suas paredes, de cor creme, e seus móveis, de uma madeira nobre e clara, tal como o lustre vítreo digno de um delírio onírico impressionariam qualquer cliente, mas Watson necessitava de mais. Um pouco mais tarde, próximo ao meio-dia, Steve e John já haviam organizado razoavelmente bem o novo escritório, embora ainda faltassem alguns toques finais, móveis a serem comprados, livros a serem trazidos, clientes a serem informados…. Várias mudanças que Steve teria de passar graças à máfia, que ele tanto ajudara no passado. A raiva do advogado era compartilhada pelo criminoso, que agora se sentindo perseguido pelos mafiosos, se via com um problema financeiro, uma vez que a máfia era sua principal fonte de renda. Contudo, Watson tenta ajudar Price o oferecendo uma vaga de ajudante em seu escritório, que não a aceita de imediato.

Entretanto, o barulho de um motor potente acaba despertando a atenção dos dois. Eles olham pela janela do escritório e veem um carro negro parado frente ao prédio onde Watson mora. Saindo dele, uma figura conhecida: Pequeno Timmy. Ele sai do carro e chuta a porta do prédio, adentrando-o. Ainda que furioso, Watson se contém. Ele vê vários homens dentro do automóvel. O advogado liga para a polícia e logo duas viaturas cercam o carro. Os oficiais rendem os homens, mas logo os criminosos passam a negociar com os policiais. Eles parecem se reconhecer e Watson teme que os gângsteres sejam liberados. Agora era impossível conter a fúria de Steve; seus dentes rangiam enquanto seu sangue fervia, alcançando cada parte de seu corpo, como uma febre insana: uma de suas mãos trêmulas alcança o cabo de seu revólver enquanto suas pernas, desobedecendo a qualquer razão que ainda sobrava no advogado, leva-o a confrontar os criminosos, sejam eles policiais ou gângsteres. John suplica a Watson que ele não cometa nada que ele possa se arrepender mais tarde; contudo, se Steve não fizesse aquilo, talvez ele se arrependesse para sempre.

Quando o advogado se vê de frente aos policiais, ele pergunta o que está acontecendo. Um dos policiais, um sujeito de grosso bigode negro, calvo e de olhos verdes, cujo crachá revelava que seu nome era Bloyd, fala que aquilo nada tinha a ver com o cidadão. Watson, dizendo ser ele responsável pela denúncia, confronta o oficial. Um dos gângsteres, rendido e de joelhos no chão, pergunta quem o advogado é. Ele responde se tratar de um dos amigos do General Oliver, buscando intimidá-lo. O criminoso ri dele e pergunta se ele tinha algo a ver com “um homem chamado Steve Watson”, pergunta que o advogado nega. Confrontando cada vez mais Bloyd, Steve finalmente questiona se os gângsteres e os policiais estavam negociando e que se fosse o caso, ele iria os denunciar e se encarregaria do processo, como o advogado que é. A pergunta irrita o oficial, que se aproxima dele, olhando-o nos olhos e diz: “Você tem certeza, meu caro? Isso é Chicago.

Foi como se aquelas palavras despertassem um incontrolável demônio dentro de Watson. Sua mão, já próxima a seu revólver, moveu-se com velocidade assombrosa, tal como a luz de um arrebatador relâmpago e as patas de um guepardo sanguissedento. Quando a bala disparada pelo seu revólver, um verdadeiro martelo da única justiça que funcionaria em Chicago, alcançou o tanque do carro dos gângsteres, explosões cobriram a rua, matando todos presentes, com exceção de Watson e Bloyd, que caira aos pés do advogado. As labaredas passavam por Steve como pássaros assustados por uma visão terrível, enquanto Bloyd pedia perdão, sangrando no chão. Sem olhar para o tosco homem, o advogado puxa uma faca, se ajoelha e crava a lâmina prateada na cabeça do oficial, calando-o para sempre. “Isso é Chicago“, disse Watson.

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NO HOSPITAL

Richard Holmes estava em seu escritório no momento em que a explosão ocorreu. Ao olhar pela janela, ele reconhece a figura de Steve. Em instantes, ele vê a figura de Pequeno Timmy deixando o prédio onde mora o advogado. Watson lentamente se levanta e encara o gângster. Eles se fuzilam com olhares, esperando o momento ideal para atirar um contra o outro. As labaredas crepitam enquanto os dedos resistem ao impulso de um movimento brusco até as armas; o vento sopra de oeste a leste, carregando poeira e destroços; enquanto isso, o investigador observa do alto. Dois tiros são escutados, um homem cai: Steve Watson, jogado no asfalto, encontra-se agora sangrando terrivelmente.

Vendo seu companheiro ao chão, Holmes respira fundo e puxa seu revólver; apoia sua mão em seu outro braço e fecha um dos olhos, repousando seu corpo sobre o parapeito da janela: concentrado, dispara um tiro de fé contra a cabeça de Timmy. Com uma precisão incomparável, o projétil perfura o crânio do mafioso, impedindo-o eternamente de cometer qualquer outro crime. Por azar, contudo, o corpo do gângster cai sobre as chamas, começando a queimar. Richard percebe que se ele quiser revistar os pertences de Timmy, ele precisa andar rápido. Contudo, o tempo do investigador ir até o corpo do criminoso poderia impedir Holmes de salvar a vida de seu amigo, se ainda houvesse como.

Entre a vida de Watson e possíveis pistas essenciais para o caso, Holmes opta por salvar seu aliado. Rasgando a blusa do advogado e com uma pequena lâmina, o investigador é capaz de retirar o projétil do peito de Steve. Após isso, ele joga álcool do seu whisky sobre a ferida e logo após a estanca. Vendo o corpo de Timmy queimando, Holmes lamenta pelas pistas perdidas. Enquanto isso, John, percebendo a situação, já espera os dois no carro de Watson. Holmes vê Price e leva Watson para o carro. Os três vão para o hospital.

No caminho, os três passam pela principal praça da cidade. Sobre um palanque, um homem com cerca de 60 anos faz um anúncio. Ele diz para as pessoas terem fé na cidade, muito embora ele entenda os motivos para o desespero da população. Ao terminar seu discurso, ele é imediatamente ovacionado pela multidão que o observa. Contudo, ao mesmo tempo que as palmas começam, um carro esportivo e de placa estranha chama a atenção de Richard; ele suspeita que aquele carro pertence à máfia.

O lado exterior do grande prédio de três andares em que funcionava o hospital era simples e agradável, de paredes brancas e portas de madeira grossa e clara, com uma escultura dourada do Bastão de Asclépio sobre ela. Holmes consegue rapidamente fazer com que Watson seja atendido. Após isso, quatro médicos, levando um homem em uma maca, passam por ele, desesperados, levando o paciente para o interior do hospital. O homem gritava e se contorcia, e os médicos diziam que tinham de levá-lo para tomar soro.

Curioso com a cena, Holmes pergunta a uma atendente sobre o que estava acontecendo. Ela o diz que, recentemente, vários casos de pessoas envenenadas por cobras estavam ocorrendo em Chicago. Sabendo disso, John e Richard pedem para investigar as salas onde estão esses pacientes, mas a atendente não os permite.

Price, sem perder tempo, vai a uma loja de aparatos médicos e compra um jaleco para se disfarçar e poder melhor investigar. Assim que retorna ao hospital, ninguém percebe quando ele atravessa a porta que leva da sala de espera para o interior. Contudo, ao adentrar o corredor principal, um médico de meia-idade o aborda, perguntando quem ele era. Price fala ser o dr. Wayne, um novo médico naquele hospital, contratado para ajudar os pacientes envenenados. O médico se apresenta como Dr. Charles. Enquanto isso, Richard Holmes acaba encontrando uma entrada alternativa para o interior do hospital. Assim que ele lá se encontra, logo busca por John Price.

John e Richard se encontram. O médico pergunta a Holmes quem ele é; o investigador diz que estava lá para visitar um amigo internado. Os dois são levados por Charles à sala onde estão os pacientes envenenados, e John anota alguns nomes para uma futura investigação. Dr. Charles, ao ser informado por Richard de que ele era um investigador, conta a ele sobre um problema que o afligia. O médico namorava uma jovem. Eles tiveram um curto relacionamento até que ela engravidou. Após isso, ela resolveu denunciá-lo por estupro; algo que Charles, infelizmente, já esperava. Após ela ser assassinada da mesma forma que as mulheres mostradas por Manfredini, a família da jovem assumiu o processo. Charles pergunta se Holmes poderia investigar o assassinato da garota, pois mesmo após o processo, ele ainda tinha sentimentos por ela. O investigador diz que analisará a proposta.

Quando Watson desperta, quase no fim da tarde, o grupo se reúne, incluindo Oliver, para decidir o próximo passo da investigação. Enquanto John suspeita que é interessante analisar a causa dos ataques das serpentes, o general sugere que é ainda mais urgente descobrir o que anda acontecendo com as grávidas em Chicago. Após alguma discussão, todos concordam que o melhor a ser feito é ir ao departamento de polícia e conversar com Manfredini. Surge em Watson, ainda bastante ferido, uma terrível ideia.

Ao chegar à sala do investigador policial, ele logo permite que todos entrem. Eles trocam cumprimentos breves enquanto o advogado se aproxima de uma janela atrás de Manfredini. Os investigadores o informam sobre o confronto de Watson com a máfia e a polícia. Um pouco surpreso, Manny fala que manterá sigilo sobre isso. É quando o inesperado acontece.

Em uma fúria maníaca, o advogado salta sobre o pescoço do policial com uma faca em mãos. Manfredini se assusta, questionando-o sobre o que diabos estava acontecendo. Watson se revela cansado do esquema da polícia: de que lado eles estavam? Do crime? Da justiça? Ou de lado nenhum? Manny suspira e pesadamente afirma que era impossível dizer quantos policiais estavam na emaranhada teia criminosa que cobria Chicago, mas que existiam alguns poucos que ainda lutavam para manter a ordem. O policial afirma que ele, sozinho, era muito fraco e pequeno dentro daquele sistema onipotente, mas junto àqueles que se mostravam presentes em sua sala, ele poderia fazer alguma diferença. A lâmina lentamente abandona o pescoço de Manny, enquanto Watson ainda o encara desconfiado.

Manfredini revela que a investigação do caso de Christine tinha revelado novas informações. Aparentemente, a jovem havia denunciado um sujeito chamado Sullivan King como suspeito do rapto de sua irmã, Emma Shepard. Sullivan cometeu diversos crimes em seu passado, sendo que é muito provável, dada a sua influência, que seus pais, Barbara e Edward King, não saibam de seus atos. Contudo, é também sabido que Edward está desaparecido há algum tempo. Após uma breve investigação em suas residências em Chicago, Manfredini foi capaz de descobrir que Van Helsing está morando em uma propriedade dos Kings nos arredores da cidade. Os investigadores dizem que uma visita ao médico seria interessante, e Manfredini se oferece para acompanhá-los até lá. Eles adentram uma viatura policial e vão até a casa de que Manny falou.

gemini.png SIGNOS E SOLDADOS

A viatura para de frente ao portão de grades metálicas aberto. O grupo abandona o carro e atravessa a cerca viva que circundava o casarão. Era fácil dizer que os jardineiros dos Kings possuíam um gosto peculiar, tendo em vista as retorcidas formas arbustivas que dominavam a grama escura do imenso jardim, além da miríade de orquídeas e outras flores que assumiam cores frias. Na área central do local, um chafariz com a estátua de um anjo sem cabeça e de asas retorcidas, empunhando uma espada e erguendo a outra mão aos céus, completava o cenário macabro. De frente a tudo isso, o palacete de pedra cinzenta com suas molduras de janela e portas de madeira escura se erguia imponente, com suas gárgulas, perfeitamente alinhadas com cada aresta superior da mansão, rugindo para os investigadores.

Luzes se acendem no interior do palacete e da porta principal da casa sai um homem corcunda e muito velho, de cabelos escorridos e grisalhos, olhos desproporcionais e vestes de serviçal. Ele observa os investigadores, que, calados pela assustadora visão, só escutam a figura dizer que a “srta. Lubov” esperava por eles.

Eles atravessam a grossa porta de madeira e adentram ao vestíbulo, onde uma grande escadaria coberta por um luxuoso tapete turco de cores castanhas se ramifica em duas, levando a um corredor no andar superior. O piso é de tábuas de madeira nobre que combinam com o tapete e as paredes de tom creme, onde vários retratos feitos a óleo se encontram pendurados. O corcunda diz que irá chamar seus mestres e logo eles veem duas figuras descendo as escadas. Uma era o misterioso Van Helsing, enquanto a outra se tratava de uma mulher de corpo magro, cabelo negro ondulado e preso em um coque, robes de dormir, pele oliva, nariz fino e olhos atentos e escuros.

Benedict Van Helsing pergunta o que eles faziam na mansão e os investigadores dizem que precisavam que algumas perguntas fossem respondidas. Enquanto isso, a mulher, que se apresenta como Malvina Lubov Rasputin, encara incessantemente Richard Holmes. No primeiro momento de silêncio que se faz, ela se aproxima de uma mesa de canto e desembolsa um baralho, colocando as cartas à mostra sobre a superfície. Ela pede que Holmes escolha uma carta. Em um momento de deboche, ele decide fazer uni-duni-tê. Malvina o observa, sorrindo maliciosamente. Ela diz a ele que aquela é uma oportunidade única de saber mais do ele jamais poderia saber; uma oportunidade de mergulhar no futuro para compreender o presente, um presente que poucos jamais receberiam em vida. Richard, convencido pela mulher, tira uma única carta – a segunda. Lubov sorri quando vê a cara de Holmes ao encarar a Morte naquela carta.

Oliver pergunta o que Van Helsing faz morando na casa que pertencia a Edward. O médico responde que o homem era um velho amigo dele e que após trocarem algumas cartas, Benedict percebeu que era melhor ir para Chicago para melhor entender a situação do amigo. Watson indaga sobre o que estava acontecendo com Edward. Van Helsing diz que há algo naquela casa que pode ajudá-los a entender melhor, se eles não se incomodassem de o acompanhar. O grupo, ainda que receoso, aceita o convite.

Holmes, Manfredini, Oliver, Price e Watson sobem as escadas acompanhando Malvina e Van Helsing. Eles atravessam os corredores até chegar ao quarto de Lubov; um local de paredes alvas e piso de madeira clara, terrivelmente mal iluminado, uma ali não havia luz artificial, a única fonte de iluminação era a lua, cujo brilho atravessava três janelas na parede opostas à da porta. Havia ali não mais que uma refinada penteadeira com objetos perfeitamente organizados sobre ela, uma cama metálica brilhando sob a luz prateada e um simplório armário de madeira. Tudo isso não era mais do que detalhes se comparado à grande manta que se encontrava presa a uma das paredes. Lubov a encarava com um olhar sem vida. Ela diz que, após um terrível pesadelo, despertou em uma espécie de frenesi. Tirando a manta da parede, ela revela, como deduzido por Watson, um desenho da constelação de Gêmeos feito a sangue. Rasgando o pulso com os dentes, ela havia pintado aquela misteriosa imagem. Oliver ri da mulher, dizendo não acreditar naquele tipo de bobagem, tampouco no prenúncio de morte que ela fizera a Richard. Uma discussão começa: enquanto Malvina provoca o general ao lembrar das mortes de Verdun, o general a acusa de ingenuidade quanto às causas da guerra. Ela retruca dizendo que, ainda que a política seja a força motriz da guerra, há a necessidade de homens para empunhar armas. Irritado, Oliver pede a Malvina que siga adiante com o que ela estava falando.

Nesse instante, Van Helsing sugere a Manfredini que saia do quarto. Ele obedece como uma ordem; como se uma força superior a ele o impelisse a fazer aquilo: fato notado por Watson. Ao perceber isso, o advogado questiona Benedict sobre o que ele tinha feito; o médico diz a Steve que muitas forças agem sobre o mundo e que ele sabia controlar, ainda que em parte, algumas delas. Watson pergunta se ele poderia aprender aquilo e se Van Helsing poderia ensiná-lo. Ele, por vez, responde que sim – quando o momento chegasse. Questionado sobre a constelação de gêmeos, o anfitrião responde que aquilo tem provavelmente algo a ver com o filho de Edward, Sullivan. Nesse momento, Malvina fala que ela costuma visitar a mãe dele, Barbara, e que achava prudente investigá-la.

Insetos cantavam sob a luz da lua enquanto a hora passava. O frio do fim do inverno era uma brisa inebriante que atravessava os parapeitos de madeira envelhecida, ainda que bela. O grupo pergunta porque Manfredini teve de sair e Van Helsing diz que ele não era importante para os “planos do universo”, alegando que Malvina não o vê em seus sonhos. Por outro lado, a cartomante diz que, em seus sonhos, ela pode ver um grupo de heróis se unindo, enquanto demônios se fortalecem para combatê-los. Watson, ainda com muitas questões a fazer, indaga Van Helsing sobre Al Capone. Quais eram os planos do criminoso? O médico respira fundo e com certo receio, diz que o mafioso procura ressuscitar um “demônio”. Watson pergunta o porquê. Por fim, o médico responde: “por poder, é claro”.

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O Herdeiro Maldito - Primeira Parte

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Chicago,
Março, 1922.

O DESTINO DE CHRISTINE SHEPARD
Foi na noite do dia 14 de março que o Dr. Steve Watson e John Price deram seus primeiros passos na mais sombria vereda que jamais deveriam ter adentrado.

Os dois estavam no escritório de Watson, um próspero advogado de Chicago que fazia alguns favores à máfia. Price era um antigo cliente e amigo de Steve. A sala em que estavam, que ficava no andar superior de uma casa de arquitetura holandesa, era opípara: um lugar aconchegante de paredes com barrados de madeira nobre, com um papel de parede verde escuro agradável, contrastando com o piso de tábuas claras. O local era bastante organizado, com alguns vasos de planta próximos à porta de madeira nobre, tal como as estantes com doutrinas jurídicas e a mesa central entalhada à mão que ficava sobre um tapete turco. Uma luminária dourada com um abajur de vidro vermelho era um detalhe da escrivaninha com pilhas de papéis e livros encadernados a couro, acompanhados por uma fina máquina de escrever. Duas janelas laterais possuíam cortinas de seda. A cadeira em que Steve se sentava era grande e estofada com couro carmesim, enquanto as duas que eram destinadas aos clientes era um simples, porém elegante, banco de plástico negro, onde se sentava John. Um notório quadro representando uma paisagem bucólica ao pôr-do-sol enfeitava a parede oposta à da porta.

Inesperadamente, o antes solitário e intenso som das gotas de chuva se junta ao som do ronco de um motor. Watson, não esperando mais nenhum cliente naquela noite, resolve ir até à janela ver do que se tratava. Um Packard cinza havia estacionado à sua porta. Dele, dois homens saem, enquanto o carro continua ligado.

Um dos homens era alto e forte, carregando um pé-de-cabra em uma das mãos e uma submetralhadora Thompson nas costas. O outro já era bem menor, com feições similares a de um roedor. Eles entram e começam a gritar, no andar de baixo, com a secretária de Watson; Christine Shepard, uma jovem de beleza comum com um pouco mais de vinte anos de idade.

Um disparo é dado para cima pelo homem menor, formando um buraco relativamente grande no piso do escritório. Watson e Steve observam o que acontece no andar de baixo. O indivíduo com cara de rato discute com Christine, mas não é possível compreender sobre o quê. Quando o gângster diz “isso é pra você aprender a fechar a boca, vadia”, ele se lança contra Christine, acertando sua faca contra a testa da secretária: John e Steve entram em choque. Imediatamente, eles sacam suas armas e miram para realizar um disparo; vendo que Christine já estava morta, os dois atiram contra o homem maior. Steve acerta, mas John erra o tiro, permitindo que o sujeito permaneça de pé. Quando os dois criminosos olham para cima, Price reconhece o assassino de Christine como Joey Larson, enquanto outro era conhecido como Pequeno Timmy; dois gângsteres da máfia. Este, reagindo aos disparos dados pelos dois amigos, faz vários disparos contra o andar superior.

Quando as balas começam a furar o piso, tanto Price quanto Watson correm em direção à janela do escritório. Os projéteis acertam os móveis, derrubando objetos e destruindo o luxo do local; isso seria um problema para Watson se ele e seu amigo não tivessem sido acertados pelas balas; por sorte, eles conseguiram sobreviver, e o advogado abria a janela para poder escapar para a rua. Os dois deslizam por um teto intermediário, caindo sobre a calçada. Ao ouvir os dois escapando, Timmy vai em direção à rua e prepara sua metralhadora. Watson corre em direção ao carro, sob a escuridão da noite e a fúria da chuva, mas percebe que há um homem no banco de motorista do Packard. Sem pensar duas vezes, atira contra o sujeito, matando-o. Timmy, ao chegar à porta, dispara contra Price, que cai no chão. Percebendo isso, Watson, já no carro, faz uma manobra que o coloca entre Timmy e Price, protegendo seu amigo e cliente. Watson abre a porta do carro e rapidamente coloca John dentro do automóvel, enquanto Timmy dispara contra a lataria do Packard. Sem fechar a porta, ele acelera o carro e parte dali, deixando a dupla de gângsteres para trás.

Um pouco distante do seu escritório, Watson começa a ouvir sirenes policiais à distancia. Ele para seu carro na esquina mais próxima, temendo pelo pior. Duas viaturas param atrás dele, das quais vários policiais saem. Entre eles, um homem trajado não em fardas policiais, mas em um grande sobretudo de tweed e um traje elegante aliado a uma insígnia. Era Manfredini. Watson também sai do seu carro, com as mãos para o alto, enquanto revólveres e pistolas são para ele apontados. O advogado tenta convencer os policiais de que nada aconteceu, mas Manfredini ainda continua suspeito, somente o liberando após combinarem de se encontrar no dia seguinte. Após o acordo, Watson leva Price ao hospital com a ajuda dos policiais, que não reconhecem o criminoso.

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ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO

Cerca de uma hora mais tarde, Oliver e Richard se encontravam no escritório do investigador, bebendo whisky e fumando cigarros. O rádio tocava “A Batida do Defunto”, música que os dois escutavam silenciosamente, escondendo a agonia e quase obsessão que sentiam por conta da canção.

É quando uma estrondosa e grave batida na porta de madeira interrompe o transe sob o qual eles se encontravam. Os dois se entreolham, temerosos. Enquanto Richard lentamente saca seu revólver, Oliver caminha em direção à porta, visando observar através de seu olho mágico.

Cada passo do general é pesado e cauteloso. Quando seu olho se aproxima da fina lente vitrica, ele se depara com uma visão terrível: um homem de aproximadamente 50 anos, trajando elegantes vestes cinzentas, tinha sua mandíbula deslocada e olhos cobertos pelo que parecia ser catarata. Sua barba, manchada por sangue, revelava sua identidade. Era Schultz, amigo de Oliver e Richard, presumido morto desde o caso de St. Michel.

Nesse momento, o telefone começa a tocar. Richard atende. Manfredini pede ajuda do investigador. Outra batida na porta. Richard aceita ajudar Manfredini, que o informa onde o encontrar. Mais uma batida soa. Oliver abre a porta. Schultz entra como um animal selvagem. O homem se prosta ao chão, contorcendo-se, cravando suas garras em sua blusa e a rasgando ao meio; tudo isso para revelar uma mensagem escrita à faca em seu peito:

Vocês destruíram o presente.
Destruíremos seu futuro.

Oliver e Richard se sentem mal brevemente. Quando eles olham o peito nú de Schultz, eles ainda notam mais uma marca: um ankh invertido.

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Holmes e Watson já se conheciam. O advogado morava no prédio de frente ao escritório do investigador e os dois já trabalharam juntos algumas vezes, além de terem cursado Direito juntos. Essa série de coincidências levou Richard a identificar o endereço que Manfredini relatou como o escritório de Steve. Sabendo disso, Richard avisa Watson, por telefone, da investigação que estava ocorrendo. Watson diz que irá acompanhar Holmes e Oliver.

Quando os três chegam ao escritório de Watson, a chuva já está um pouco mais intensa. Os faróis das viaturas e as luzes a gás dos postes iluminam as proximidades da casa onde funcionava o escritório. Quando os três passam pela porta do local, Manfredini se aproxima deles. Após o investigador policial questionar Steve novamente sobre o que aconteceu naquele estabelecimento, o advogado revela a verdade. Ao analisar brevemente o corpo de Christine, os investigadores notam a marca do ankh invertido na testa da secretária. Manny relata a morte de várias outra mulheres; contudo, todas elas estavam grávidas, diferindo assim daquele caso. Manfredini mostra algumas fotos dos demais assassinatos; todas as mulheres estavam com seus ventres rasgados e filhos arrancados, em uma grotesca cena perturbadora. Manny pede pela ajuda de Richard naquele caso, alegando que Chicago precisa dele. Holmes assume a responsabilidade. Os investigadores tomam mais um passo em direção à loucura.

Oliver, Richard e Steve saem do escritório e vão até a casa de um conhecido de Watson: um homem negro conhecido como Jack, cujo contato com a máfia pode ajudar os investigadores. O local é um bangalô antes bonito, mas agora bastante decadente. Vendo que nenhuma luz está acesa na residência e considerando o horário, Watson bate à porta com um pouco de força. Apesar do incômodo, Jack os recebe bem, compartilhando informações úteis: segundo ele, Capone está envolvido com uma nova rede de depósitos na cidade. Oliver, ao procurar pela casa, encontra uma carta falando sobre algo a ser realizado no equinócio, que aconteceria em uma semana, e que aqueles interessados em participar do evento devem aguardar mais informações. Embora o evento em si não seja descrito na mensagem, Jack revela que o convite se relaciona a um novo culto na máfia.
Após saírem da casa de Jack, os investigadores saem para beber. Lá eles conversam com um homem da cidade, que dada a hora e os trajes, poderia muito bem ser um criminoso. Steve, contudo, tenta falar com ele e pergunta sobre depósitos em Chicago. A muito custo, ele consegue a informação de que a família King é responsável por muitos depósitos na cidade.

Oliver e Richard encontram um homem misterioso, estranhamente belo, alto e esguio, de pele clara, cabelos castanhos penteados para trás e olhos negros, trajando um fino paletó e fumando cigarro. Holmes percebe que o jeito dele de se vestir e de fumar remetem a Londres. Oliver, ao conversar com o sujeito, descobre seu sobrenome: Van Helsing, um médico inglês que diz trabalhar para famílias. Questionando cada vez mais o doutor, Oliver revela as fotos dos assassinatos que ocorreram em Chicago. O médico engole em seco, dizendo o nome dos investigadores, incluindo a John Price, e fala que eles são importantes para um plano maior: contudo, ele precisava sair de lá imediatamente.

Mais tarde, quando Price retorna a sua casa, muito ferido e com toda sorte de curativos espalhados pelo corpo, ele encontra Joey Larson. O infeliz criminoso como cara de rato faz uma proposta para John: caso ele matasse Oliver, Richard e Steve, o grande chefe, Capone, iria promove-lo na máfia. Price finge aceitar e Larson acredita. Larson é levado até a porta por seu anfitrião. Quando o criminoso atravessa a rua de encontro de um Packard novo, uma bala acerta sua cabeça. Price se aproxima do corpo inerte, joga-o sobre seu ombro e o coloca dentro do carro. Ele assume o volante e acelera em direção a uma das pontes sobre o rio Chicago. John acelera para fora da ponte e pula para fora do carro. O gélido cadáver alvo de Larson afundava na fria água escura.

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A Sombria Canção dos Mortos

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Chicago, 1921.

SALÃO CÉU AZUL

Era sexta-feira à noite em Chicago quando as vidas de três velhos amigos mudaram para sempre.

O Salão Céu Azul, um estabelecimento ilegal conhecido por ser um dos mais finos bares da cidade seria o palco do bizarro espetáculo que estava prestes a acontecer. Os infelizes atores dessa peça eram o general Oliver, um renomado oficial militar bastante conhecido em Chicago, Richard Holmes, um investigador particular com conflitos com a polícia, e o alemão Schultz, um teólogo alemão.

O local era impressionante. Após aguardarem por um longo tempo em uma sala de espera, cujos pisos quadrados se intercalavam nas cores azul e branca e as paredes eram de um tom de creme confortante, com um notável lustre elétrico pendendo em seu teto alto. Após subirem alguns degraus em direção ao salão principal, os três amigos se viram ainda mais surpresos com a fantástica estrutura do local. O salão era imenso, tanto em questão de altura quanto área. Vários lustres elétricos adornados em vidro, prata e ouro iluminavam o local, sendo auxiliados por um vasto número de candelabros acesos sobre as incontáveis mesas circulares cobertas por alvas toalhas com renda nas pontas, cercadas por numerosas cadeiras de madeira clara. As mesas ocupavam a área central do salão, sendo que na sua extrema direita havia um palco, enquanto do outro lado havia a área dos funcionários e os bares e suas bancadas, com algumas cadeiras altas de cedro com almofadas azul-bebê ou creme.

Eles percebem que os funcionários são todos negros, enquanto os frequentadores são brancos. Os visitantes estavam muito bem trajados, sendo que os homens usavam caros ternos e as mulheres, belíssimos vestidos de gala. Os funcionários usavam o mesmo tipo de roupa, mas sempre na cor azul-bebê.

Os três amigos são levados até uma mesa um tanto mais afastada da escada que levava ao salão. Ao se sentarem, percebem estar muito próximos de uma parede com uma misteriosa velha porta que destoa do local; aparentemente, ele deve ter caído em desuso há muito tempo. Eles perguntam ao gerente do que se tratava aquela porta, que diz ter sido uma rota de acesso dos camarotes há muito tempo atrás, sendo que hoje ela já não era mais usada.

Após algum tempo, um homem que já estava no salão se aproxima da mesa de Oliver, Richard e Schultz. Ele rapidamente pega um lugar e parece não se importar com o grupo; a atitude do sujeito desperta a curiosidade e instigar certa raiva nos três amigos, que passam a questioná-lo sobre o que ele estava fazendo naquela mesa.

O homem não chega a dizer seu nome. Ele sujeito de porte médio, de óculos de armações grossas, cabelo ensebado penteado para o lado e com sobrancelhas grossas e unidas. Ele parece estar bastante nervoso, batendo os dedos na mesa freneticamente e suando pela testa. O grupo acredita que ele está esperando alguém. Quando um garçom se aproxima da mesa, Oliver pergunta a ele se aquele homem lhe era familiar. Usando um pouco de lábia, o general descobre que ele havia sido visto com alguns mafiosos.

A porta atrás da mesa se abre, derrubando um pouco de poeira do seu topo e batendo em uma das cadeiras próximas. De lá sai um homem negro, alto e de cabelo raspado. Ele usa um terno marrom bastante gasto, destoando de todos no recinto. Richard o reconhece como Leroy Turner, um trompetista local. A identificação se confirma quando o grupo vê o trompete prata que Turner carrega. Oliver estranha o instrumento; trompetes normais costumam ter apenas três pistões: aquele possuía quatro.

Quando Turner tenta ir em direção ao palco, ele precisa passar pelo homem ansioso na mesa do grupo. Ao pedir gentilmente ao sujeito, o trompetista é respondido com palavras rudes. Ele então pede licença a Oliver. Os três amigos logo percebem que Leroy está bêbado. Oliver pede antes para ver o trompete, que o músico muito relutantemente entrega ao general. Estranhas figuras desconhecidas por Oliver estão gravadas no interior do instrumento. O general permite que Turner passe.

Quando o músico sobe ao palco, a música que a banda estava tocando parece melhorar absurdamente. Leroy é realmente um instrumentista talentoso, destacando-se em meio à banda. O grupo continua a beber até que o líder dos músicos faz um anúncio homenageando o prefeito que havia acabado de vencer uma eleição e se encontrava naquele estabelecimento ilegal.

Enquanto o homem está falando, um mirrado sujeito com cara de rato adentra o salão, sendo percebido por poucos. Quando o grupo o percebe, ele está atrás do sujeito ansioso da mesa. A banda volta a tocar, o trompete soa alto. Um tiro abafado pela música salta do cano de uma .45 e acerta a cabeça do estranho homem sentando na mesa. Miolos voam por todos os lados e acertam o general. Poucos fora o grupo percebem o ocorrido. O assassino sai correndo. Olive e Richard o seguem ferozmente. Schultz está estarrecido.

O general e o investigador seguem o assassino pela porta donde Leroy saiu. Eles descem uma longa e empoeirada escada caracol feita de ferro, que leva até uma escura sala deixada às traças com uma única porta que leva à rua. Quando os dois protagonistas abandonam os domínios de trevas da fria sala abandonada, eles veem um Packard cinza ligando seus motores em meio à chuva. Richard tenta atirar contra o carro, mas não consegue acertá-lo quando ele entra em movimento. Oliver pega sua moto militar e tenta seguir o assassino misterioso, mas não obtém sucesso. O general percebe que a placa do carro foi arrancada.

Quando o general retorna, o investigador o espera sob o batente da porta. Eles escutam a música tocando no salão acima e conversam brevemente sobre o acontecimento.

O dorso do homem que acabara de ser assassinado pousava sobre a mesa com seu crânio estourado pintando a toalha de um tom de rubro aterrador, com o rosto coberto por uma expressão disforme e sinistra devido ao estouro na parte superior da cabeça. Miolos cobriam a elegante mesa circular como espessas larvas sobre um pedaço de carne podre. As pessoas próximas a Schultz chamam os funcionários, rezam e falam gritando. Ninguém sabe exatamente o que fazer e o desespero começa a tomar conta da área próxima a Schultz.

É quando o teólogo alemão percebe que o cadáver começa a bater a ponta dos dedos sobre a mesa ao ritmo da música. Assustado, ele grita aos demais sobre o que estava acontecendo. Logo as pessoas começam a correr. O cadáver se levanta como uma marionete. Seu dorso se torna rígido. Sua testa baleada derrama sangue por todos os lados. Seus olhos são cobertos por uma fina camada azulada. Ele murmura algo que Schultz não entende. Desesperado, ele se levanta, e o cadáver faz o mesmo. O morto anda pelo salão, e conforme as pessoas o percebem, começam a se levantar e a sair correndo. Oliver e Richard escutam o inferno no Salão Céu Azul e resolvem para lá volta. Quando eles lá chegam, percebem o descontrole do salão. A banda havia parado de tocar e só observa a demoníaca massa agitada que se contorce enquanto corre pelos pisos de cerâmica branca e azul. Eles correm pela escada, derrubando uns aos outros, pisoteando os corpos caídos. Quando o cadáver cai no chão, o mesmo acontece a ele. Ele se levanta, cai novamente, e cada vez que isso acontece, sua situação fica ainda mais deplorável. Agora ele estava perdido em meio à multidão.

Schultz desce as escadas e tranca o salão. Richard se põe debruçado ao apoio que permitia ver o andar de baixo, saca sua .45 e fala para todos se acalmarem. Oliver encontra um telefone e liga para a polícia. Logo eles veem o cadáver descendo as escadas. Pessoas desmaiam, choram, rezam e gritam, mas o cadáver segue seu caminho sem hesitar. Richard acredita escutar o morto dizendo “Joey“. Assim que a criatura termina de descer as escadas, é possível escutar as viaturas. Schultz abre as portas e o morto as atravessa. É quando um dos carros policiais o acerta, arremessando-o para longe, derrapando e batendo contra um poste. Dos demais carros policiais, além dos homens que ajudam aqueles da viatura avariada, sai Henry Manfredini, investigador policial e rival de Richard Holmes.

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O DIA SEGUINTE

Oliver e Richard acordam cedo e vão ao departamento de polícia. Lá encontram Manny conversando com o diretor do departamento em uma sala, contando os acontecimentos do dia anterior a ele. Assim que o investigador policial deixa o local, Oliver pede a ele que se mantenha em silêncio sobre aqueles fatos para não causar uma maior comoção. Após isso, os dois investigadores se direcionam aos arquivos do departamento. Lá eles descobrem que Manusco tinha poucas passagens criminais importantes. Oliver descobre que muitas denúncias de perseguição por um Packard cinza ocorreram recentemente em uma pobre área isolada de Chicago. Richard leva quatro horas para encontrar o homem que assassinou Manusco. Ele busca por Joey e sua suspeita se confirma; Joey Larson, um violento e perigoso criminoso da cidade foi responsável pela morte de Pete. Schultz, enquanto isso, buscava por mais informações sobre o estranho trompete nas igrejas locais. Ele descobre muito pouco sobre o objeto, o que o faz acreditar se tratar de algo completamente alienígena.

Os três se reúnem e vão à funerária. O local também possuía um cemitério particular, onde um enterro parecia estar acontecendo. Havia uma banda acompanhando o funeral. Eles perguntam à secretária da funerária o que está acontecendo, mas ela responde que é um simples enterro de um senhor da região. Os três investigadores se aproximam do evento e percebem que a banda a tocar é a mesma que estava tocando no salão. Eles também percebem que Leroy Turner não está lá. Há um grande caixão de madeira escura esperando para ser enterrado.

Assim que os três veem o trompetista se aproximando, Oliver se posiciona próximo ao caminho que o músico irá passar. Ele começa a segui-lo até o local do funeral, mas nada anormal acontece. Algum tempo depois, Turner começa a tocar junto à banda. Schultz corre até ele para impedi-lo. Alguns homens sacam armas. Richard e Oliver pegam revólveres e apontam para os homens. Turner pressiona o quarto pistão. Uma batida é escutada no interior do caixão. Schultz soca a cara de Turner. Homens apontam a arma para o general e o investigador. Schultz soca novamente Leroy, que apaga. O homem dentro do caixão quebra a tampa. As pessoas olham abismadas para ele. Richard e Oliver atiram contra o morto-vivo. Schultz pega o trompete e pressiona o quarto pistão.

Os três se reúnem e vão à funerária. O local também possuía um cemitério particular, onde um enterro parecia estar acontecendo. Havia uma banda acompanhando o funeral. Eles perguntam à secretária da funerária o que está acontecendo, mas ela responde que é um simples enterro de um senhor da região. Os três investigadores se aproximam do evento e percebem que a banda a tocar é a mesma que estava tocando no salão. Eles também percebem que Leroy Turner não está lá. Há um grande caixão de madeira escura esperando para ser enterrado.

Assim que os três veem o trompetista se aproximando, Oliver se posiciona próximo ao caminho que o músico irá passar. Ele começa a segui-lo até o local do funeral, mas nada anormal acontece. Algum tempo depois, Turner começa a tocar junto à banda. Schultz corre até ele para impedi-lo. Alguns homens sacam armas. Richard e Oliver pegam revólveres e apontam para os homens. Turner pressiona o quarto pistão. Uma batida é escutada no interior do caixão. Schultz soca a cara de Turner. Homens apontam a arma para o general e o investigador. Schultz soca novamente Leroy, que apaga. O homem dentro do caixão quebra a tampa. As pessoas olham abismadas para ele. Richard e Oliver atiram contra o morto-vivo. Schultz pega o trompete e pressiona o quarto pistão.

O teólogo se vê em uma colossal salão de teto esférico; o domo é moldado pela carne putrefata de corpos vagamente humanoides que se agarram em um demoníaco frenesi, contorcendo-se e gritando. Ao seu lado, enormes flautas feitas de ossos, emanando estranhas melodias de notas dissonantes, certamente compostas por uma mente perturbada ou alienígena. O mais bizarro é a sombra que ele vê no fundo da sala. Por mais que ele não consiga discernir a imagem completamente, ele nota que o demônio possui três longas pernas caprinas, um dorso que é remotamente humano com inúmeras marcas medonhas, braços que terminam em garras compridas e nefastas; todas essas características já seriam o suficiente para enlouquecer qualquer homem, mas sua forma ainda apresenta um detalhe herético, blasfemo, repugnante e pavoroso: a criatura não tinha uma cabeça, mas sim um enorme tentáculo sobre seu dorso que parece conter uma disforme bocarra monstruosa.

Quando Schultz desperta de seu pesadelo terrível, ele agarra o trompete com todas suas forças, repetindo e sussurrando uma única frase e se prostrando ao chão: ”Iä, Iä, Cthulhu fhtagn… Iä, Iä, Cthulhu fhtagn…”

O morto-vivo se aproxima de Schultz e cai de joelhos sobre o chão. A criatura retorna às mãos da morte e cai. É nesse momento que um Packard cinza parado na rua rompe as grades metálicas que protegem o cemitério e vai à toda velocidade contra Schultz. Richard tenta pular frente ao teólogo para tentar tirá-lo dali, mas falha e acaba ficando parado. O carro gira sobre os túmulos e para com o banco de passageiros frontal virado para Schultz. A porta se abre e de lá sai Joey. Desesperado, Richard puxa sua arma e tenta atirar contra o assassino, mas seu tiro só atinge Joey de raspão. O homem agarra Schultz e o carro gira novamente, agora batendo nas costas de Richard à toda velocidade, fazendo-o cair no chão e apagar. Schultz é puxado para dentro do carro. Oliver tenta atirar contra o motorista com sua espingarda e consegue. O homem, tremendamente ferido, só consegue pisar no acelerador, atravessando as grades contrárias de onde ele veio e parando um pouco mais a frente. Logo eles descobrem que um outro elemento já esperava por Joey na frente, armado com uma metralhadora.

Schult havia sido levado pelos bandidos, Richard e Turner estavam desmaiados. As pessoas que estavam no velório estão no chão tremendo de medo. No meio do pandemônio, ergue-se imponentemente o general Oliver.

O homem leva Richard para seu carro e depois volta para falar com Turner. Ele imagina que a polícia deveria estar chegando a qualquer momento. Ele tenta, com sucesso, despertar o trompetista. O homem pede um pouco de bebida, que o general possui convenientemente e o entrega receosamente. Turner revela alguns detalhes do trompete, falando que o objeto havia sido entregue a ele por Louis Armstrong e que ele não sabia como conseguia fazer que mortos levantassem. Ele também revela que as denúncias de perseguição do Packard cinza eram dele. O general percebe o semblante triste do homem e pergunta se algo havia acontecido, e ele revela que sua namorada havia morrido dois anos atrás.

Schultz, sem saber, é levado para um grande depósito e é trancado em uma sala escura com não mais do que uma luminária fraca sobre uma mesa velha e uma porta. Quando acorda, ele escuta o que parece ser uma música tocando a partir de um rádio. Ele grita com todas suas forças para parar com aquele som; de alguma forma, ele não consegue tolerar escutar aquilo. Assim que ele grita, um homem grande e forte entra na sala, trajando elegantes roupas escuras. Schultz grita e se debate perguntando o que ele quer. O homem revela que ele estava atrás do trompetista que poderia reviver os mortos. Schultz começa a gritar e a discutir com o homem, que aponta uma arma para sua cabeça. Ele diz não ter nada a perder e sua vida é tirada no mesmo momento.

Richard é levado ao hospital, com vértebras e costelas quebradas, além de alguns ferimentos mais básicos. Uma semana depois, ele é visitado por Manfredini e Oliver. Os dois discutem sobre uma incursão a ser realizada pela polícia a um depósito apontado pelo dono do Céu Azul. Richard e Oliver pedem para participar e Manny concorda. Com o passar do tempo, Richard se recupera. Oliver descobre que Turner não vive mais em seu apartamento, tendo desaparecido. O general e o investigador procuram por pistas dentro da casa de Turner e encontram uma série de pautas musicais com uma música escrita. Eles levam isso a um trompetista que consegue entender a música, dizendo que ela havia sido criada de forma a indicar que ao terminar a música pela primeira vez, ela deveria ser tocada ao contrário. Os investigadores contam todo o caso ao músico e ele sugere que a música tocada de traz para a frente, invés de trazer mortos à vida, levaria as coisas vivas à morte.Ele ainda se pergunta o porquê de Turner ainda não ter trazido sua amada de volta à vida.

Alguns dias antes da incursão, uma notícia de um jornal de pouco crédito revela que um grupo de gângsteres foi morto. Em um primeiro instante, após um dos elementos ser morto por um segurança, um dos criminosos trocou um trompete e o morto se levantou, atirando nos próprios aliados. O músico, contudo, escapou. Sabendo disso, Richard e Oliver deduzem que Turner fora ressuscitar sua amada. O outro trompetista conta a Richard e Oliver que a namorada de Turner foi enterrada no cemitério St. Michel.

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O CEMITÉRIO

Oliver pediu ajuda policial para a ida ao cemitério, mas só conseguiu fazer com que um homem o acompanhasse. Quando o general, o investigador, o policial e o trompetista chegaram ao cemitério, era noite e o vento estava forte. Ao longe, era possível escutar o som de um trompete tocando. O músico que acompanhava o grupo reconheceu a música como aquele que ele analisara dias antes.

Eles resolvem observar a cena do lado de fora das grades do cemitério. Lentamente, cada túmulo se quebra e de dentro deles saem mortos. Todos os mortos do cemitério estavam levantados, porém parados. Somente um corpo caminhava; um corpo feminino, nu, de uma garota negra que em vida deveria ser muito bela. Ele caminha até seu amado. Observando o caminho que ela faz, eles encontram Leroy. Richard tenta atirar contra ele e erra. A música começa a tocar com mais intensidade. Os mortos correm contra o grupo.

O policial, aterrorizado, assume que o melhor para ajudar o grupo é tirar aquelas criaturas dali. O resto do grupo concordo. Ele pega sua moto e começa a atrair os mortos com o ronco do motor do automóvel. Os demais correm em direção a Leroy. Passando por fileiras intermináveis de mortos, atirando e afastando aqueles que podem, eles conseguem fazer o caminho até o trompetista. Eles tentam lutar contra Leroy, mas os mortos restantes os impedem. Quando Richard atira contra Leroy, o músico consegue ainda tocar uma última nota antes de morrer. Quando a nota termina de soar, ele retorna à vida e continua tocando. Nesse momento, o policial atravessa um posto de gasolina e tenta atirar com sua espingarda em uma das bombas. Ele erra e o recuo da espingarda o faz cair da moto. Os mortos se aproximam dele.

Oliver corre em direção a Leroy e o soca. O trompete cai.

“Toque a música ao contrário! Agora! ” Ele disse.

O trompetista pega o instrumento e o toca. Um som ensurdecedor começa a emanar dos mortos e do trompete. Richard e Oliver caem ao chão, mas o músico continua a tocar. O policial vê a fileira de mortos lentamente caindo a sua frente; ele estava a salvo.

A polícia chega um pouco mais tarde, após alguns habitantes da região reclamarem de estranhos barulhos vindo da rua. Alguns até dizem acreditar terem visto mortos andando pelas ruas. No cemitério, a cabeça do trompetista está repleta de buracos que expelem sangue, como se ele tivesse sido alvejado por balas. Enquanto isso, Oliver e Richard estão dormindo sobre uma poça de vômito e sangue, cercados por mortos e túmulos quebrados. Contudo, o cantar dos insetos e o piar das corujas e corvos do local é acompanhado pelo sussurro dos dois velhos amigos:“Iä, Iä, Cthulhu fhtagn… Iä, Iä, Cthulhu fhtagn…”

O policial que os acompanhava se aproxima da cena; ao ver o trompete, o quebra. Fazendo isso, uma voz extraplana, gutural e bizarra sussurra um nome perdido na escuridão das eras: “Nyarlathotep”.

Meses mais tarde, a banda de Leroy Turner lançou uma música com um solo dele. Seu nome era “A Batida do Defunto”, mas para aqueles investigadores, aquela sempre seria a Sombria Canção dos Mortos.
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