Cthulhu Crisis

O Herdeiro Maldito - Primeira Parte

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Chicago,
Março, 1922.

O DESTINO DE CHRISTINE SHEPARD
Foi na noite do dia 14 de março que o Dr. Steve Watson e John Price deram seus primeiros passos na mais sombria vereda que jamais deveriam ter adentrado.

Os dois estavam no escritório de Watson, um próspero advogado de Chicago que fazia alguns favores à máfia. Price era um antigo cliente e amigo de Steve. A sala em que estavam, que ficava no andar superior de uma casa de arquitetura holandesa, era opípara: um lugar aconchegante de paredes com barrados de madeira nobre, com um papel de parede verde escuro agradável, contrastando com o piso de tábuas claras. O local era bastante organizado, com alguns vasos de planta próximos à porta de madeira nobre, tal como as estantes com doutrinas jurídicas e a mesa central entalhada à mão que ficava sobre um tapete turco. Uma luminária dourada com um abajur de vidro vermelho era um detalhe da escrivaninha com pilhas de papéis e livros encadernados a couro, acompanhados por uma fina máquina de escrever. Duas janelas laterais possuíam cortinas de seda. A cadeira em que Steve se sentava era grande e estofada com couro carmesim, enquanto as duas que eram destinadas aos clientes era um simples, porém elegante, banco de plástico negro, onde se sentava John. Um notório quadro representando uma paisagem bucólica ao pôr-do-sol enfeitava a parede oposta à da porta.

Inesperadamente, o antes solitário e intenso som das gotas de chuva se junta ao som do ronco de um motor. Watson, não esperando mais nenhum cliente naquela noite, resolve ir até à janela ver do que se tratava. Um Packard cinza havia estacionado à sua porta. Dele, dois homens saem, enquanto o carro continua ligado.

Um dos homens era alto e forte, carregando um pé-de-cabra em uma das mãos e uma submetralhadora Thompson nas costas. O outro já era bem menor, com feições similares a de um roedor. Eles entram e começam a gritar, no andar de baixo, com a secretária de Watson; Christine Shepard, uma jovem de beleza comum com um pouco mais de vinte anos de idade.

Um disparo é dado para cima pelo homem menor, formando um buraco relativamente grande no piso do escritório. Watson e Steve observam o que acontece no andar de baixo. O indivíduo com cara de rato discute com Christine, mas não é possível compreender sobre o quê. Quando o gângster diz “isso é pra você aprender a fechar a boca, vadia”, ele se lança contra Christine, acertando sua faca contra a testa da secretária: John e Steve entram em choque. Imediatamente, eles sacam suas armas e miram para realizar um disparo; vendo que Christine já estava morta, os dois atiram contra o homem maior. Steve acerta, mas John erra o tiro, permitindo que o sujeito permaneça de pé. Quando os dois criminosos olham para cima, Price reconhece o assassino de Christine como Joey Larson, enquanto outro era conhecido como Pequeno Timmy; dois gângsteres da máfia. Este, reagindo aos disparos dados pelos dois amigos, faz vários disparos contra o andar superior.

Quando as balas começam a furar o piso, tanto Price quanto Watson correm em direção à janela do escritório. Os projéteis acertam os móveis, derrubando objetos e destruindo o luxo do local; isso seria um problema para Watson se ele e seu amigo não tivessem sido acertados pelas balas; por sorte, eles conseguiram sobreviver, e o advogado abria a janela para poder escapar para a rua. Os dois deslizam por um teto intermediário, caindo sobre a calçada. Ao ouvir os dois escapando, Timmy vai em direção à rua e prepara sua metralhadora. Watson corre em direção ao carro, sob a escuridão da noite e a fúria da chuva, mas percebe que há um homem no banco de motorista do Packard. Sem pensar duas vezes, atira contra o sujeito, matando-o. Timmy, ao chegar à porta, dispara contra Price, que cai no chão. Percebendo isso, Watson, já no carro, faz uma manobra que o coloca entre Timmy e Price, protegendo seu amigo e cliente. Watson abre a porta do carro e rapidamente coloca John dentro do automóvel, enquanto Timmy dispara contra a lataria do Packard. Sem fechar a porta, ele acelera o carro e parte dali, deixando a dupla de gângsteres para trás.

Um pouco distante do seu escritório, Watson começa a ouvir sirenes policiais à distancia. Ele para seu carro na esquina mais próxima, temendo pelo pior. Duas viaturas param atrás dele, das quais vários policiais saem. Entre eles, um homem trajado não em fardas policiais, mas em um grande sobretudo de tweed e um traje elegante aliado a uma insígnia. Era Manfredini. Watson também sai do seu carro, com as mãos para o alto, enquanto revólveres e pistolas são para ele apontados. O advogado tenta convencer os policiais de que nada aconteceu, mas Manfredini ainda continua suspeito, somente o liberando após combinarem de se encontrar no dia seguinte. Após o acordo, Watson leva Price ao hospital com a ajuda dos policiais, que não reconhecem o criminoso.

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ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO

Cerca de uma hora mais tarde, Oliver e Richard se encontravam no escritório do investigador, bebendo whisky e fumando cigarros. O rádio tocava “A Batida do Defunto”, música que os dois escutavam silenciosamente, escondendo a agonia e quase obsessão que sentiam por conta da canção.

É quando uma estrondosa e grave batida na porta de madeira interrompe o transe sob o qual eles se encontravam. Os dois se entreolham, temerosos. Enquanto Richard lentamente saca seu revólver, Oliver caminha em direção à porta, visando observar através de seu olho mágico.

Cada passo do general é pesado e cauteloso. Quando seu olho se aproxima da fina lente vitrica, ele se depara com uma visão terrível: um homem de aproximadamente 50 anos, trajando elegantes vestes cinzentas, tinha sua mandíbula deslocada e olhos cobertos pelo que parecia ser catarata. Sua barba, manchada por sangue, revelava sua identidade. Era Schultz, amigo de Oliver e Richard, presumido morto desde o caso de St. Michel.

Nesse momento, o telefone começa a tocar. Richard atende. Manfredini pede ajuda do investigador. Outra batida na porta. Richard aceita ajudar Manfredini, que o informa onde o encontrar. Mais uma batida soa. Oliver abre a porta. Schultz entra como um animal selvagem. O homem se prosta ao chão, contorcendo-se, cravando suas garras em sua blusa e a rasgando ao meio; tudo isso para revelar uma mensagem escrita à faca em seu peito:

Vocês destruíram o presente.
Destruíremos seu futuro.

Oliver e Richard se sentem mal brevemente. Quando eles olham o peito nú de Schultz, eles ainda notam mais uma marca: um ankh invertido.

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Holmes e Watson já se conheciam. O advogado morava no prédio de frente ao escritório do investigador e os dois já trabalharam juntos algumas vezes, além de terem cursado Direito juntos. Essa série de coincidências levou Richard a identificar o endereço que Manfredini relatou como o escritório de Steve. Sabendo disso, Richard avisa Watson, por telefone, da investigação que estava ocorrendo. Watson diz que irá acompanhar Holmes e Oliver.

Quando os três chegam ao escritório de Watson, a chuva já está um pouco mais intensa. Os faróis das viaturas e as luzes a gás dos postes iluminam as proximidades da casa onde funcionava o escritório. Quando os três passam pela porta do local, Manfredini se aproxima deles. Após o investigador policial questionar Steve novamente sobre o que aconteceu naquele estabelecimento, o advogado revela a verdade. Ao analisar brevemente o corpo de Christine, os investigadores notam a marca do ankh invertido na testa da secretária. Manny relata a morte de várias outra mulheres; contudo, todas elas estavam grávidas, diferindo assim daquele caso. Manfredini mostra algumas fotos dos demais assassinatos; todas as mulheres estavam com seus ventres rasgados e filhos arrancados, em uma grotesca cena perturbadora. Manny pede pela ajuda de Richard naquele caso, alegando que Chicago precisa dele. Holmes assume a responsabilidade. Os investigadores tomam mais um passo em direção à loucura.

Oliver, Richard e Steve saem do escritório e vão até a casa de um conhecido de Watson: um homem negro conhecido como Jack, cujo contato com a máfia pode ajudar os investigadores. O local é um bangalô antes bonito, mas agora bastante decadente. Vendo que nenhuma luz está acesa na residência e considerando o horário, Watson bate à porta com um pouco de força. Apesar do incômodo, Jack os recebe bem, compartilhando informações úteis: segundo ele, Capone está envolvido com uma nova rede de depósitos na cidade. Oliver, ao procurar pela casa, encontra uma carta falando sobre algo a ser realizado no equinócio, que aconteceria em uma semana, e que aqueles interessados em participar do evento devem aguardar mais informações. Embora o evento em si não seja descrito na mensagem, Jack revela que o convite se relaciona a um novo culto na máfia.
Após saírem da casa de Jack, os investigadores saem para beber. Lá eles conversam com um homem da cidade, que dada a hora e os trajes, poderia muito bem ser um criminoso. Steve, contudo, tenta falar com ele e pergunta sobre depósitos em Chicago. A muito custo, ele consegue a informação de que a família King é responsável por muitos depósitos na cidade.

Oliver e Richard encontram um homem misterioso, estranhamente belo, alto e esguio, de pele clara, cabelos castanhos penteados para trás e olhos negros, trajando um fino paletó e fumando cigarro. Holmes percebe que o jeito dele de se vestir e de fumar remetem a Londres. Oliver, ao conversar com o sujeito, descobre seu sobrenome: Van Helsing, um médico inglês que diz trabalhar para famílias. Questionando cada vez mais o doutor, Oliver revela as fotos dos assassinatos que ocorreram em Chicago. O médico engole em seco, dizendo o nome dos investigadores, incluindo a John Price, e fala que eles são importantes para um plano maior: contudo, ele precisava sair de lá imediatamente.

Mais tarde, quando Price retorna a sua casa, muito ferido e com toda sorte de curativos espalhados pelo corpo, ele encontra Joey Larson. O infeliz criminoso como cara de rato faz uma proposta para John: caso ele matasse Oliver, Richard e Steve, o grande chefe, Capone, iria promove-lo na máfia. Price finge aceitar e Larson acredita. Larson é levado até a porta por seu anfitrião. Quando o criminoso atravessa a rua de encontro de um Packard novo, uma bala acerta sua cabeça. Price se aproxima do corpo inerte, joga-o sobre seu ombro e o coloca dentro do carro. Ele assume o volante e acelera em direção a uma das pontes sobre o rio Chicago. John acelera para fora da ponte e pula para fora do carro. O gélido cadáver alvo de Larson afundava na fria água escura.

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VictorSuzumura

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